segunda-feira, 4 de dezembro de 2017



Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e tinha um temperamento ardente e impetuoso. Conta uma lenda que Xangô enviou-a em missão na terra dos baribas, a fim de buscar um preparado que, uma vez ingerido, lhe permitiria lançar fogo e chamas pela boca e pelo nariz. Oiá, desobedecendo às instruções do esposo, experimentou esse preparado, tornando-se também capaz de cuspir fogo, para grande desgosto de Xangô, que desejava guardar só para si esse terrível poder.
Oiá foi, no entanto, a única das mulheres de Xangô que, ao final do seu reinado, seguiu-o na sua fuga para Tapa. E, quando Xangô recolheu-se para baixo da terra em Kossô, ela fez o mesmo em Irá.

Antes de se mulher de Xangô, Oiá tinha vivido com Ogum. A aparência do deus do ferro e dos ferreiros causou-lhe menos efeito que a elegância, o garbo e o brilho do deus do trovão. Ela fugiu com Xangô, e Ogum, enfurecido, resolveu enfrentar o seu rival; mas este último foi à procura de Olodumaré, o deus supremo, para lhe confessar que perdoasse a afronta. E explicou-lhe: "Você, Ogum, é mais velho do que Xangô! Se, como mais velho, deseja preservar sua dignidade aos olhos de Xangô e aos outros orixás, você não deve se aborrecer nem brigar; deve renunciar a Oiá sem recriminações". Mas Ogum não foi sensível a esse apelo, dirigido aos sentimentos de indulgência. Não se resignou tão calmamente assim, lançou-se à perseguição dos fugitivos e trocou golpes de varas mágicas com a mulher infiel. Que foi então, dividida em nove partes. Este números 9, ligado a Oiá, está na origem de seu nome Iansã e encontramos esta referência no ex-Daomé, onde o culto de Oiá é feito em Porto Novo sob o nome de Avesan, no bairro Akron ( Lokoro dos Iorubás) e sob o de Abesan, mais ao norte em Baningbê. Esses nomes teriam por origem a expressão Aborimesan ("com nove cabeça"), alusão aos supostos nove braços do delta do Níger.

Uma outra indicação da origem desse nome nos é dada pela lenda da criação da roupa de Egúngún por Oiá. Roupas sob as quais, em certas circunstâncias, os mortos de uma família voltam a terra a fim de saudar seus descentes. Oiá é o único orixá capaz de enfrentar e de dominar os Egúngún.
Oiá lamentava-se de não ter filhos. Esta triste situação era conseqüência da ignorância a respeito das suas proibições alimentares. Embora a carne de cabra lhe fosse recomenda, ela comia a de carneiro.
Oiá consultou um babalaô, que lhe revelou o seu erro, aconselhando-a a fazer oferendas, entre as quais deveria haver um tecido vermelho. Este pano, mais tarde, haveria de servir para confeccionar as vestimentas dos Egúngún. Tendo cumprido essa obrigação, Oiá tornou-se mãe de nove crianças, o que se exprime em iorubá pela frase: "Iyá omo mésàn”, origem de seu nome Iansã.

Quanto ao seu outro nome Oya, há uma lenda que faz alusão à sua origem explicando-a por um jogo de palavras. Nela se conta "como uma cidade chamada Ipô esta ameaçada de destruição, invadida pelos guerreiros tapás. Para preserva-la foi feita uma oferenda das roupas do rei dos ipôs. Esse traje era de tal beleza que as galinhas do lugar puseram-se a cacarejar de surpresa – razão pela qual, diz-se gravemente na lenda, as galinhas cacarejam até hoje, sempre estão em presença de qualquer coisa estranha. Esse prestigioso traje foi rasgado (ya) em dois para servir de almofada de apoio às cabaças de oferendas. Apareceu então, misteriosamente, uma água que se espalhou (ya), inundando os arredores da cidade e afogando os agressores tapas. Quando os habitantes de Ipô procuraram um nome para este rio que surgiu e se espalhou, ya, quando as roupas foram rasgadas, ya, decidiram chamá-lo Odò Oya.
Existe uma lenda, conhecida na África e no Brasil, que explica de que maneira os chifres de búfalo vieram a ser utilizados no ritual do culto de Oiá-Iansã:

"Ogum foi caçar na floresta. Colocando-se à espreita, percebeu um búfalo que vinha em sua direção. Preparava-se para mata-lo quando o animal, parando subitamente, retirou sua pele. Uma linda mulher apareceu diante de seus olhos. Era Oiá-Iansã. Ela escondeu a pele formigueiro e dirigiu-se ao mercado da cidade vizinha. Ogum apossou-se do despojo, escondendo-o no fundo de uma depósito de milho, ao lado de sua casa, indo, em seguida, ao mercado fazer a corte à mulher-búfalo. Ele chegou a pedi-la em casamento, mas Oiá recusou inicialmente. Entretanto, ela acabou aceitou, quando, de volta à floresta, não mais achou a sua pele. Oiá recomendou ao caçador não contar a ninguém que, na realidade, ela era um animal. Viveram bem durante alguns anos. Ela teve nove crianças, o que provocou o ciúme das outras esposas de Ogum. Estas, porém, conseguiram descobrir o segredo da aparição da nova mulher. Logo que o marido se ausentou, elas começaram a cantor: " Máa je, máa um, àwò re nbe nínú àká", Você Pode beber e comer (e exibir sua beleza), mas a sua pele está no deposito (você é um animal).
"Oiá compreendeu a alusão; encontrando a sua pele, vestiu-a e voltando à forma de búfalo, matou as mulheres ciumentas. Em seguida, deixaram os seus chifres com os filhos, dizendo-lhes: Em caso de necessidade, batam um contra o outro, e eu virei imediatamente em vosso socorro. É por essa razão que chifres de búfalos são sempre colocados nos locais consagrados a Oiá-Iansã".
Tivemos oportunidade de ouvir essa história na Bahia, narrada por Pai Cosme, um Velho pai-de-santo, hoje falecido. Ele pronunciava com perfeita correção a frase iorubá citada acima.
Os oríkì dirigidos a Iansã descrevem-na bastante bem:

"Oiá, mulher corajosa que, os acordar, empunhou um sabre".
Oiá, mulher de Xangô.
Oiá, cujo marido é vermelho.
Oiá, que embeleza seus pés com pó vermelho.
Oiá, que morre corajosamente com seu marido.Oiá, vento da morte.
Oiá, ventania que balança as folhas das árvores por toda parte.
Oiá, a única que pode segurar os chifres de um búfalo".

(in: Orixás de Pierre Fatumbi Verger)

Oriki de Oyà Yánsàn

Oyà A To Iwo Efòn Gbé
Oyà Olókò Àra
Obìnrin Ogun
Obìnrin Ode
Oya Òrírì Arójú Bá Oko Kú.
Iru Èniyàn Wo Ni Oyà Yí N Se, Se?
Ibi Oya Wà, Ló Gbiná
Obìnrin Wóò Bi Eni Fó Igbá
Oyà tí awon òtá rí
Tí Won Torí Rè Da Igbá Nù Sì Igbó
Héèpà Héè, Oya ò!
Erù Re Nikan Ni Mo Nbà O
Aféfé Ikú
Obìnrin Ogun, Ti Ná Ibon Rè Ní À Ki Kún
Oyà ò, Oyà Tótó Hun!
Oyà, A P'Agbá, P'Àwo Mó Ni Kíákíá,
Kíákíá, Wéré Wéré L' Oyà Nse Ti È
A Rìn Dengbere Bíi Fúlàní
O Titi Tí Nfi Gbogbo Ará Rìn Bí Esin
Héèpà, Oya Olómo Mesan, Ibá Re Ò!

Tradução

Ela é grande o bastante para carrega o chifre do búfalo
Oyà, que possui um marido poderoso
Mulher guerreira
Mulher caçadora
Oyà, a charmosa, que dispõe de coragem para morrer com seu marido.
Que tipo de pessoa é Oyà?
O local onde Oyà está, pega fogo
Mulher que se quebra ao meio como se fosse uma cabaça
Oyà foi vista por seus inimigos
E eles, assustados, fugiram atirando as bagagens no mato
Eeepa He! Oh, Oyà!
És a única pessoa que temo
Vendaval da Morte
A mulher guerreira que carrega sua arma de fogo
Oh, Oyà, à Oyà respeito e submissão!
Ela arruma suas coisas sem demora
Rapidamente Oyà faz suas coisas
Ela vagueia com elegância, como se fosse uma nômade fulani
Quando anda, sua vitalidade é como a do cavalo que trota
Eeepa Oya, que tem nove filhos, eu te saúdo!

sábado, 17 de junho de 2017



Triptych Bleu I, II, III

Antes de tudo.
Bem antes do que houve depois, nos encontramos naquela exposição do Miró. Ele estava lá com amigos e não nos aproximamos.
Dessa ocasião guardei o olhar plutoniano de quem caminha à beira do abismo, no limite perigoso de tudo. Entre a virtude e o vício.

Ele atravessou o salão com uma fixidez no olhar tão aguda que senti todo meu corpo doer. Um segundo depois ele era Édipo e era a Esfinge decifrando e devorando. As pessoas ao seu redor falavam sem cessar enquanto ele se ausentava para dentro do azul.

Um pouco mais tarde...

Primeiro houve aquele vernissage.
Os convidados espremidos uns contra os outros e os garçons e os objetos e quadros antes do salão principal. Por instantes nos vimos em lados opostos. Ele cercado por amigos e eu encurralado por arte contemporânea. Então nos perdemos.
Ainda me lembro do encontro dos nossos olhos e da fixidez do seu olhar antes de mergulhar num profundo silêncio.

Depois houve Miró. Nós três, lado a lado, nos observando imersos na imensidão azul. A exclamação vermelha, as reticências e um fio de promessa ascendente.
Saímos juntos e fomos beber algo que não nos matasse, mas quase.

Depois ele me ligou. Falamos sobre coisas das quais não me recordo.
Três dias depois, outro telefonema. Falamos sobre Miró.
Ele disse que precisava me ver.
Perguntei se ele poderia vir.
Ele preferia que fosse em outro lugar. Um café ou bar no centro. No fim da tarde. Que esperaria o tempo que fosse preciso. Que havia certa urgência. Que não me apressasse. Que fosse. Como se nada mais importasse.

Chovia uma chuva fina de fim de verão em março.

M.P.

26/03/2002  

domingo, 26 de março de 2017





Le Radeau de la Méduse, 1818-1819
Théodore Géricault


Somos sobreviventes.

Sobreviventes e, ao contrário do que pensa o senso comum, não há glória nisto, não há regozijo, não há mérito, não há bravura, não há heroísmo, não há respeito ou compaixão, não há orgulho, não há honra.

Um sobrevivente não é alguém que ande de cabeça erguida.
Um sobrevivente é um vulto, um indigente que rasteja sob o sol, sombra de si mesmo, pelos cantos da calçada. Um sobrevivente é o restolho do vaticínio do fracasso que malogrou. Um sobrevivente é o excremento que flutua ao fim do naufrágio. Um sobrevivente é alguém que vaga entre o que não foi, o que poderia ter sido e o que não será. Um sobrevivente é aquele que carrega os próprios cacos nos bolsos rotos e vê seus farelos caírem como fuligens de seus rastos. Não sabe de si. Não se reconhece. Não sabe de nada. Um sobrevivente somos nós todos os que seguimos sub-existindo.

Não há honra na sobrevivência, em ser a sobra da calamidade, aquilo que a desgraça não mastigou e engoliu, aquilo que o revés não aniquilou, o rejeito da miséria. Ser aquilo que o destino esqueceu de aniquilar na sua passagem irrefreável sobre nossas existências.

Não há orgulho na sobrevivência. Quem pode orgulhar-se de ser a sobra do desastre? O resto esmigalhado da consumição? O escombro irreparável, irrecuperável, a ruína preservada assinalando que aqui e ali a fatalidade passou e não deixou a possibilidade de futuro? Terra seca, mil vezes pisada e salgada.

Não há mérito na sobrevivência. Por que sobrevivemos? Por que nós? Não por nós mesmos, é certo. Não por um esforço consciente e elaborado, numa estratégia ̶ somos ignorantes demais quanto a nossa condição, nenhum de nós está pronto ou é preparado e quando nos damos conta, se nos damos conta, é tarde, já somos a borra. Mas, por acaso, sobrevivemos por simples acaso, por esquecimento do destino. Por uma insignificância essencial que nos fez invisível quando a mão da indesejada baixou, rente à nuca, a foice e levou os fortes, os bravos, colhendo o grão e deixando o joio daninho, sobrevivemos.

Não há heróis entre nós. Os heróis morreram para que sobrevivêssemos e não lhes somos gratos por isto, por herdarmos esta dívida, essa obrigação ao reconhecimento por terem nos tornado essa lástima, esse andrajo. Os heróis foram os que não escaparam, os eleitos para o holocausto sem sentido e inútil. Inútil porque nós, os sobreviventes, não sabemos o que fazer deles além de erigirmos ícones ocos e esquecê-los.

Entre nós, os sobreviventes, não há respeito ou compaixão. Não nos unificamos nessa sina, não nos compadecemos e não nos damos as mãos. Sabemos quem somos e a vergonha nos obriga ao recolhimento e ao silêncio sobre essa vergonha de termos escapado para o nada. Entulho no baldio. Lepra moral contagiosa que nos isola nos lazaretos individuais, minúsculos, mesquinhos, ínfimos de nossa ignomínia.

Somos sobreviventes. E não há Paz que nos abrigue.


Murilo Pagani



segunda-feira, 24 de outubro de 2016



O que é Deus.

Não foi provado,
mas dizem que é um fungo.
Cresce por baixo e sobe por dentro.
Ocupa abaixo e acima.

No cerne beira o espanto,
nas orlas pinta e borda.

MP


quinta-feira, 18 de agosto de 2016



Você pode falar perfeitamente o Yorùbá e saber todos os acentos ao escrevê-lo também, mas se você não sabe como falar com bondade e amor ao seu irmão ou irmã, então, você não aprendeu nada.
Você pode memorizar cada Oriki e cada ẹsẹ Odu do Corpus Literário de Ifá e saber como lançar uma adivinhação perfeita, mas se você não sabe como tratar as pessoas e como superar suas formas destrutivas e negativas, você ainda é um novato no reino espiritual.
Você pode conhecer cada dança e todas as músicas além de todos os protocolos de sua linhagem, mas se você não pode andar por um caminho de paz e de alegria interior… Isto então é apenas uma outra canção e uma outra dança.
Você pode conhecer todos os rituais, cerimônias, e como fazer milhares de obras e trabalhos espirituais, mas se você não pode viver o ritual da vida e viver as virtudes do òrìşà, Egun e seu Ori, então, você é um mero técnico, mas certamente não é um mestre espiritual.
Você pode ter alguns títulos, os mais impressionantes, um ile, templo ou casa de culto para dez mil pessoas, mas se você sentir a necessidade de degradar, controlar, manipular os outros ou ofendê-los enquanto eles estiverem em uma posição inferior, você será apenas mais um ego de criança impulsionando e tentando tirar proveito as custas dos outros.
Você pode estar no culto tradicional toda a sua vida, mas se você acha que isso te faz melhor ou mais avançado do que alguém espiritualmente, então, você é um tolo, pois você não poderá reconhecer que nosso Ori é o nosso primeiro professor... E ele tem ensinando a cada um desde o nascimento…
Você pode ser velho de anos e chamar a segurança social, mas se você ainda vive a vida como uma criança temperamental de 10 ou 15 você ainda terá que caminhar para chegar ao sacerdócio.

Fale-me de Èşù quando você for capaz de fazer escolhas capacitadas e falar a verdade em palavras e atos.
Fale-me de Ogun quando você for capaz de romper suas próprias ilusões, enfrentar seus medos, seus fracassos e corajosamente evoluir para manifestar o melhor de si.
Fale-me de Osun, quando você for capaz de criar harmonia, alegria e abundância em sua própria vida sem egoísmo.
Fale-me de Ợbàtálá, quando você for capaz de semear a paz mais pura e manter uma mente tranquila.
Fale-me de Òya, quando você for capaz de estar no olho do furacão da vida e fluir facilmente quando os ventos da mudança estiverem sobre você.
Fale-me de Olokun Yemojá ou quando você for capaz de equilibrar suas emoções e empatia com os outros.
Fale-me de Orunmila quando você for capaz de ver o mundo através do olho da sabedoria e equilibrar o julgamento com compaixão e não duras críticas e outras inadequações.
Fale-me de Şàngó, quando você puder transcender o seu ego e servir aos outros com compaixão.
Fale-me de Ìyàámi quando você for capaz de honrar as mulheres em sua vida e tratá-las bem e abraçar o lado feminino de sua própria alma.
Fale-me de Egbe Ợrùn / Ibeji quando você for capaz de conhecer e distribuir o amor universal.
Fale-me de Òșóòși quando você for capaz de repartir o alimento com o estrangeiro.
Fale-me Ǫbalúwayè quando você for capaz de identificar e cuidar das doenças do corpo e da alma de um semelhante.
Fale-me de Iwa Pele (caráter) quando você puder realmente tratar os outros como você gostaria de ser tratado, porque você percebe…

Não há separação entre você e eu…
Exceto o que está em nossas próprias mentes.

Fale-me de Ọlódùmarè quando você tiver a certeza que a Fonte existe e nos alimenta, que estamos interligados e que ninguém conseguirá cumprir seu destino sozinho.

Se você ainda não se considera capaz de aceitar este ensinamento, você deve retornar ao útero e tentar tudo novamente.?



Autor do texto: desconhecido.
Imagens: Caribé.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Olaf Blecker

- Quando você vai embora?
- Eu não quero ir embora!
- Não perguntei se você quer, perguntei quando?
- O que você diz? O que sabe disso? Não disse que vou.
- Sei que você vai.
- Por que você diz isso, assim?
- Porque sei.
- Desde quando? O que você pode saber?
- Desde sempre. Desde o início, quando vi você pela primeira vez, soube que partiria. Vi nos seus olhos.
- Eu amo você.
- Também sei disso. Eu também amo você. Mas também sei que esse amor não altera sua partida. Nem seu amor, nem meu amor, nem nosso amor por nosso amor.
- E o que eu faço? O que posso fazer?
- Partir.
- Não quero.
- Precisa.
- Por que preciso?
- Porque não pode ser de outro modo, para que você seja.
- E você?
- Eu já sou. 


Se tememos a morte, esse fim certeiro,
por ser o passo derradeiro rumo ao desconhecido,
por que o outro, o outro que amamos,
se amamos quando amamos, e é esse um mistério insondável,
esse outro oculto delicado e inalcançável não nos paralisa?
Que busca esta por lugares na alma do amado
que não nos são acessíveis,
passagens num labirinto que jamais serão percorridas,
que às vezes um som, uma fragrância vêm nos instigar,
aguçar nossos sentidos, alimentar nossos desejos?
Que cobiça? Que vertigem esta? Que fascínio há?

sábado, 26 de março de 2016

Murilo Pagani - Cai a Tarde, 2011

Tarde quente
céu de chumbo
passos na alameda.

Súbito silêncio
estanque a hora
susto o ar.

Mansa chuva fria
hálito morno da terra.


MP
23/03/2016.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016


ÀS VEZES UM DEUS SELVAGEM

Às vezes um deus selvagem se senta à mesa.
Ele é desajeitado e não conhece os modos
Da porcelana, do garfo e mostarda e prataria.
Sua voz faz vinagre do vinho.

Quando o deus selvagem chega à porta,
Você provavelmente o temerá.
Ele lembra a você algo escuro
Que você pode ter sonhado,
Ou o segredo que você não quer que seja partilhado.

Ele não tocará a campainha.
Em vez disso ele raspa com os dedos
Deixando sangue na tinta,
Embora prímulas cresçam
Em círculos aos seus pés.

Você não quer deixá-lo entrar.
Você está muito ocupado.
É muito cedo, ou tarde, e além disso…
Você não pode olhar diretamente para ele
Porque ele faz você querer chorar.

O cão late.
O deus selvagem sorri,
Estende sua mão.
O cão lambe suas feridas
E o conduz para dentro.

O deus selvagem fica na sua cozinha.
Hera cresce pelas prateleiras;
Visco ocupa as luminárias
E corruíras começaram a cantar
Uma velha canção no bico da sua chaleira.

Eu não tenho muito”, você diz
E lhe dá a sua pior comida.
Ele se senta à mesa, sangrando.
Ele tosse para fora raposas.
Há lontras em seus olhos.

Quando sua esposa chama,
Você fecha a porta e
Diz para ela que está tudo bem.
Você não quer que ela veja
O estranho hóspede à sua mesa.

O deus selvagem pede uísque
E você serve um copo a ele,
E então outro para você.
Três cobras estão se aninhando
Em sua laringe. Você tosse.

Ó, espaço sem limites.
Ó, mistério eterno.
Ó, ciclos infinitos de morte e nascimento.
Ó, milagre da vida.
Ó, a maravilhosa dança disso tudo.

Você tosse de novo,
Expectorando as cobras e
Fazendo descer o uísque,
Imaginando como você ficou tão velho
E aonde foi parar a sua paixão.

O deus selvagem pega uma bolsa
Feita de toupeira e pele de rouxinol.
Ele tira dela uma flauta dupla,
Ergue uma sobrancelha
E todos os pássaros começam a cantar.

A raposa salta para os seus olhos.
Lontras correm vindas da escuridão.
As cobras se derramam por seu corpo.
Seu cão uiva e no andar de cima
Sua esposa exulta e chora ao mesmo tempo.

O deus selvagem dança com seu cão.
Você dança com os pardais.
Um gamo branco puxa um banquinho
E brada hinos de encantamentos.
Um pelicano salta de cadeira a cadeira.

Ao longe, guerreiros brotam de suas tumbas.
Ouro antigo cresce como grama nos campos.
Todos sonham com as palavras de canções há muito esquecidas.
As colinas ecoam e as pedras cinzentas ressoam
Com risos e loucura e dor.

No meio da dança,
A casa decola do chão.
Nuvens ascendem pelas janelas;
Relâmpagos batem seus punhos na mesa.
A lua se debruça à janela.

O deus selvagem aponta para o seu flanco.
Você está sangrando em abundância.
Você está sangrando há muito tempo,
Talvez desde que você nasceu.
Há um urso na ferida.

Porque você me deixou para morrer?”
Pergunta o deus selvagem e você diz:
Eu estava ocupado sobrevivendo.
As lojas estavam todas fechadas;
Eu não sabia como. Sinto muito.”

Escute-os:

A raposa no seu pescoço e
As cobras em seus braços e
A corruíra e o pardal e o gamo…
As grandes bestas inomináveis
Em seu fígado e seus rins e seu coração…

Há uma sinfonia de uivos.
Uma cacofonia de dissensão.
O deus selvagem acena com a cabeça e
Você acorda no chão segurando uma faca,
Uma garrafa e um punhado de pelo negro.

Seu cão dorme sobre a mesa.
Sua esposa se agita, lá em cima.
Suas faces estão molhadas de lágrimas;
Sua boca está dolorida de risos ou gritos.
Um urso negro está sentado junto ao fogo.

Às vezes um deus selvagem se senta à mesa.
Ele é desajeitado e não conhece os modos
Da porcelana, do garfo e mostarda e prataria.
Sua voz faz vinagre do vinho
E traz os mortos à vida.

(Escrito por Tom Hirons, traduzido e postado por Ricardo Silva em Fevereiro de 2016 com permissão do autor

sábado, 20 de fevereiro de 2016


Esse filme fala, antes de tudo, de amor. Para ser mais exato: de amor próprio. A palavra BICHA vem sendo usada de forma errada, como xingamento. Quando, na verdade, deveríamos tomar como elogio.

"Ser bicha é correr o risco de ser agredido pela ignorância. Resistimos para nos proteger, resistimos para vencer."
"Ser bicha é ser livre."
"Não vamos deixar que nos vençam, Não mesmo!"

Criado, dirigido e editado por Marlon Parente.
Com Bruno Delgado, Igor Ferreira, Ítalo Amorim, João Pedro Simões, Orlando Dantas e Peu Carneiro. 

Todos os depoimentos contidos nesse filme são experiências vividas pelos próprios participantes.
Recife - PE

domingo, 10 de janeiro de 2016

Filippo Rizzi


Luz baça,
Friagem de junho,
Manhã de domingo,
Café coado no bule de ágate azul.

Meu avô à mesa do varandão.

MP

quarta-feira, 11 de novembro de 2015



Que rei sou eu? 
(Uma valsa facebookiana)

Marco Michelangelo

Um rei, um tolo, um gay, o Bozo, o Chacrinha ou o He-Man
Um João-bobo, uma Maria-vai-com-as-outras, um Zé-ninguém
O que sou hoje não quero mais ser
O que fui ontem, amanhã serei
Um puto, um santo, o Elvis, Silvio Santos, Ringo Star, Jorge ben
O estranho, ovelha negra do rebanho, Chapolin o X-man
Ideologias por quais eu passei
fizeram meu corpo uma jaula sem lei
Eu já fui tantos que hoje nem sei:
Príncipe, playboy, plebeu, deus e rei
Pop star de all star e calça xadrez
Roqueiro, hippie, brega, chique , beatnick, fora da lei
Católico, caubói, rebelde, gogo boy, um lorde inglês.

Tive no Orkut, oitocentos amigosd
mas eu nunca estava comigo
Triste e sozinho, me sentia assim
Como o Macaulay Culkin no "Esqueceram de mim" 

sábado, 31 de outubro de 2015



Das coisas que só eu sei - e ninguém mais –
e sobre as quais dou fé e testemunho
por serem verdades inteiras.


I
Do perfume amargo das contas de madeira.
Guardadas numa caixa forrada com papel de florzinhas.
Separadas por tamanho e cor.


II
Do sabor rosa adocicado da cápsula de vitaminas.
O vidro ao alcance da criança.
A cápsula chupada até doçura virar amargor.


III
Da cortina malva, penumbra de sesta.
Mãos sob o virol bordado e o prazer malvado.
A carne túmida e macia, o gozo seco.


IV
Do frescor ‘old english lavender water’.
Sentado no fundo do armário de casacos, frincha de luz.
Vultos adultos, conversas veladas, saberes ilícitos.


V
De tardes achocolatadas pela fábrica de cigarros.
Brisa doce e morna das dezessete horas.
Reconfortante nos Invernos, asfixiante nos Verões.

VI
Do castanho úmido de pelos pubianos.
Tarde de outono, domingo na casa da avó.
O tio de short na volta da pelada, campinho de terra.


VII
Do giro regular da caixa de música dourada.
Maquinismo japonês. Melodia romântica.
Fryderyk Franciszek Chopin, Nocturne No 1 in B Flat Minor: Larghetto.


VIII
Da levedura nos dados de miolo de pão.
A avó à mesa posta no café da manhã, modelagem.
Enfileirados na janela. Secos e murchos.


IX
Do segredo atrás da cortina do chuveiro.
O tio adolescente estende a mão, creme perolado.
̶  Fiz pensando em você.


X
Do toque macio na casca da goiabeira.
Muda forte em quintal estreito.
O único fruto pendurado na ponta do galho, pro vizinho.

Murilo Pagani
outubro/2015







quinta-feira, 30 de julho de 2015


Poder

a quem incomoda
um beijo
um carinho
uma foda?

é a palavra
a imagem
a mensagem
a lembrança do ato
o viril retrato
do pau que abre
caminho
o cheiro que exala
o gozo
a rola que rala
o duto
o cu do mundo
sem mapa
a dama que
se desnuda
a cona dada
sem drama
a penugem
que aveluda
a cercania do furo
o fotograma do
momento impuro
poluto ato
sem recato
e puto?

ou o desespero absoluto
de saber
que alguém fode
sem culpa?

que alguém pode
decidir sozinho
se chupa o pinto
se abre a boceta
se mete sem medo
se dá sem dono
se o dedo avança
se a língua explora
se fora ou dentro
se goza na coxa
se a roxa cabeça
do pau avança
se faz criança
ou é por trás
se cruza com moça
ou com rapaz
se quase morre
se falta o ar
se perde o sono
se some a fala
se resta o falo
se tira e bota
se nota o volume
se vê que escorre
o leite quente
se vai pra frente
que atrás vem gente
se chupa a bala
se sente o gosto
se engole a gala? 

será por ver
que alguém pode ter
e exercer
esse poder
de simplesmente
impunemente
divinamente
(quando quer e
quando é querer)
foderfoderfoder?

sem ter que levar
a cruz
sem ter que assinar
contrato
sem ter que passar
recibo
sem perder o fino
trato
sem deixar de ser
doutor
sem ter que jurar
amor?

a ninguém devo favor
nem senhor me dá licença
nenhuma crença me amarra
nenhuma farra me escapa
nenhum mapa me norteia
nenhuma ceia me farta
nenhuma carta me rege
nem me protege algum deus
meus gozos são todos meus

a quem enfim
incomoda
o meu desejo
a minha porra
a minha foda?


Alessandro Sbampato

Oya (Oiá) é a divindade dos ventos, das tempestades e do rio Níger que, em iorubá, chama-se Odò Oya. Foi a primeira mulher de Xangô e...